Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Faleceu Júlio Pomar artista plástico e homens das artes

Fotografia de Rui Gaudêncio

Em 11 de Janeiro de 2013, a Fundação José Saramago publicava o texto que se segue, e pode ser recuperado e consultado aqui

"Júlio Pomar já tem o seu Atelier-Museu em Lisboa. E já os amantes da pintura poderão gozar da obra deste grande artista português, amigo de José Saramago, autor do cartaz que anunciava a ópera Blimunda, baseada no romance Memorial do Convento, para o Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. Júlio Pomar e José Saramago não foram apenas amigos, foram também cúmplices na oposição à ditadura de Salazar e juntos celebraram a democracia e contaram Portugal em diferentes partes do mundo. A primeira gravura que José Saramago pôde comprar na sua vida é de autoria de Pomar e pode ser vista na Fundação José Saramago, na reprodução do escritório que se exibe no primeiro andar da Casa dos Bicos, no final da exposição A Semente e os Frutos.

Parabéns, Júlio Pomar por este Atelier-Museu que a partir de abril deverá ser visitada como uma jóia principal da cidade de Lisboa.


No dia em que completou 87 anos, Júlio Pomar recebeu finalmente a prenda que lhe estava prometida desde 2000 pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), através do então presidente João Soares: um espaço para instalar um atelier-museu dedicado à sua obra. Depois de anos de complicações e burocracias, avanços e paragens, a obra de reconstrução do velho armazém na Rua do Vale, perto de São Bento, assinada pelo arquitecto Álvaro Siza, está concluída e abre portas já em Abril. Hoje foi por isso dia de se celebrar. “Finalmente está feito.” Chama-se Rua do Vale mas podia bem ser a Rua Júlio Pomar. É uma rua estreita, com passeios apertados e de apenas um sentido. Típico bairro lisboeta, onde já é habitual ver o pintor. É aqui que vive e é aqui que trabalha, ou não fosse o atelier em sua casa. E agora é também aqui que a sua obra vai passar a estar exposta, no número 7 dessa rua, no Atelier-museu Júlio Pomar. A longa fachada branca com várias janelas serve quase de caixa-forte do que o interior guarda. Lá dentro, num espaço pensado e projectado por Álvaro Siza, estará todo o espólio do pintor pertencente à Fundação Júlio Pomar. Entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas, quase 400 obras. Já há exposições programadas e também colaborações institucionais, com museus e universidades, em curso. Em Abril vamos saber mais porque quinta-feira o dia foi de festa. Pomar faz anos e as obras acabaram. “É um presente de amigos”, diz, não poupando elogios a Siza, arquitecto que escolheu para este projecto. “Este espaço parece-me magnífico, parece-me uma grande lição dada pelo Siza, que é o menos fantasista dos arquitectos que conheço, tudo o que ele faz é pensado e sentido”, acrescenta, lamentando no entanto as burocracias e problemas que a obra levantou ao longo do tempo e que levou a constantes adiamentos.


Desde que João Soares deliberou que o edifício seria para Júlio Pomar que mais três presidentes (Carmona Rodrigues, Santana Lopes e António Costa) passaram pela CML, tal foi a quantidade de avanços e recuos. O projecto inicial, que seria a criação de um atelier, foi abandonado à medida que os anos foram passando. Hoje, Pomar tem um museu. “Porque tem mais lógica”, diz. “O que não quer dizer que não faça os seus desenhitos, mas acredito que trabalhará muito melhor, no seu atelier mesmo aqui em frente e ao qual já está habituado”, conta Siza, explicando que o pintor em nada interferiu na projecção da obra. Se alguma influencia existiu na idealização do espaço foi a amizade entre os dois, que “deu um ar de felicidade ao interior”. “Isto assim como está é o que faz mais sentido”, garante o pintor, não escondendo a gratidão também perante António Costa, o actual presidente da Câmara.

“Porque é que uma ideia leva 12 anos a ser concretizada?”, questiona-se Costa, que entregou simbolicamente a chave do edifício a Pomar, que imediatamente fez questão de a passar a Sara Antónia Matos, a directora do Atelier-Museu. “Não é obvio que um barracão que estava abandonado devia ser transformado em algo como aquilo que temos aqui hoje? Não é óbvio que é um privilégio para Lisboa ter no seu território uma obra de Siza? Não é óbvio que Júlio Pomar é um artista extraordinário?”, continua o presidente, queixando-se da regulamentação “muito pesada e que complica muito”. Por tudo isto, a obra, paga na sua totalidade pela Câmara, ficou em cerca de 900 mil euros, valor que podia ter sido mais baixo se se tivesse levado menos tempo, explica Costa.

Nas paredes para já está apenas um quadro, Praça do Comércio, de 2007. A escolha é simbólica, explica a directora. Além de ter sido a última doação à Fundação, apenas há dias, foi a mulher do pintor que ofereceu. “Agora é preciso que chegue Abril para o espaço ganhar vida.”

quarta-feira, 9 de maio de 2018

"José Saramago nas suas palavras" Publicado na Folha de São Paulo (Brasil) sobre o Acordo Ortográfico (29/11/2008)

"Em princípio, não me parecia necessário [o acordo ortográfico da língua portuguesa de 1990, adotado pelos países lusófonos em 2008, para sua entrada em vigor no ano seguinte]. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a ideia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontece que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Quando acabou o “ph”, não consta que tenha havido em Portugal uma revolução. Perderíamos muito com a ideia de que o português é só nosso, acabaria como o húngaro, que ninguém entende nada."

“A humanidade não merece a vida”
Folha de S.Paulo
São Paulo - Brasil
29 de novembro de 2008

"Saramago já mora em Óbidos" via "Gazeta das Caldas" (Fátima Ferreira, 04/05/2018)

A notícia publicada no "Gazeta das Caldas" via online, pode ser recuperada e consultada aqui
em https://gazetacaldas.com/cultura/saramago-ja-mora-obidos/

"Saramago já mora em Óbidos" via "Gazeta das Caldas" (Fátima Ferreira, 04/05/2018)

"Celeste Afonso, Pilar del Rio, Humberto Marques, Jorge Leonardo e José Pinho" 
Créditos: Fátima Ferreira

"O Dia Mundial do Livro (23 de Abril) foi assinalado em Óbidos com a abertura da Casa Saramago, numa parceria entre a Fundação do Nobel da Literatura e a Óbidos Cidade Criativa da Literatura da UNESCO, que ali também está sediada. “É uma honra para a fundação José Saramago vir ao coração do centro do Portugal”, disse a sua presidente, e viúva do Nobel, Pilar del Rio, acrescentando que a casa deve “ser um mapa que cada dia se pode escrever de uma maneira distinta”.
O espaço multifuncional e multicultural acolherá exposições, lançamentos de livros, filmes, espetáculos, workshops e é composto por um auditório e biblioteca e sala de leitura.

“Nos próximos tempos aqui poderemos ouvir poesia, música, teatro e ter exposições, que são a manifestação profunda do que são os seres humanos”. As palavras são de Pilar del Rio que referiu ainda a possibilidade dos dois milhões de visitantes anuais da vila poderem também entrar nesta casa e nela encontrarem livros e filmes de Saramago em vários idiomas. O escritor é um dos autores portugueses mais traduzidos no mundo.
A programação ainda não está fechada, mas a responsável disse que o objectivo é levar a Óbidos “muita da programação da Casa dos Bicos, numa versão adaptada à sua dimensão”. Por ali passarão parte das exposições rotativas da Fundação, sobre a obra de Saramago, assim como a apresentação de peças de teatro, eventos musicais e outras iniciativas que façam a palavra circular. De acordo com Pilar del Rio, a programação não se resume à “palavra de Saramago”, lembrando que o último trabalho apresentado na Casa dos Bicos não esteve directamente relacionada com a obra do Nobel português.
Da colaboração entre a Fundação e a Óbidos Vila Literária nascerá o programa a desenvolver até ao final do ano, mas Pilar del Rio adianta que poderá passar por Óbidos uma exposição que reunirá frases de 23 autores galardoados com o prémio Nobel, tanto na literatura como na música.

“Lugar de permanente criação”

O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, esteve para vir à inauguração, mas não pôde estar presente por questões de agenda. Fez-se representar pelo chefe de gabinete, Jorge Leonardo, que leu uma mensagem do governante que destaca Óbidos como um “exemplo da relação perfeita que é possível ter e aprofundar entre o património e o valor cultural e intemporal do livro e da leitura”. Referindo-se à Casa Saramago, o governante referiu que será mais um lugar de “permanente criação que ultrapassará as fronteiras de Óbidos”.
O presidente da Câmara, Humberto Marques, disse que aquele não pretende ser apenas um espaço de memórias, mas um local onde haja um permanente processo criativo com a presença de escritores do presente, e de várias línguas, de modo a captar também novos leitores.
“Para nós o livro é uma porta que se abre ao mundo”, disse o autarca, que aposta na cultura como o motor de desenvolvimento e afirmação daquele território. E deixou pedidos ao governo: “também precisamos que o Ministério da Cultura olhe para esta estratégia não como de Óbidos, mas do país”.
O designer Jorge Silva, autor do conceito da Casa Saramago em Óbidos, referiu que o mobiliário e a decoração das paredes “são muito singelos”. Disse ainda tratar-se de um trabalho de continuidade e que a “verdadeira mobília vai aparecer depois -serão as pessoas que a vão habitar, ler e aprender”
Localizada na antiga Galeria do Pelourinho, a Casa Saramago tem diversos espaços, como loja, galeria, sala de leitura e biblioteca, auditório e a sede de Óbidos Cidade Criativa da Literatura."

sexta-feira, 4 de maio de 2018

1.º Colóquio de Estudos Saramaguianos (UFRN Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil de 13 e 15 de Junho)

Que enorme satisfação em divulgar todos os eventos e trabalhos realizados pelos "criadores" e Académicas e Académicos brasileiros, estudiosos da obra de José Saramago.

Bem Hajam estes nobres "Saramaguianos" que não deixam a obra e o autor "morrer"!!!!!



"Estão abertas as inscrições para o 1o Colóquio de Estudos Saramaguianos, que a UFRN vai sediar entre os dias 13 e 15 de junho. O evento marca os 20 anos da atribuição do Prêmio Nobel de Literatura a José Saramago. A conferência de abertura será da professora Teresa Cristina Cerdeira da Silva, da UFRJ. Informações e inscrições em




"Revista Blimunda" Edição #71 - Abril 2018

"Para ler e descarregar a revista aceda: 

"Que Lisboa estamos a construir para o futuro? Essa é a pergunta que permeia boa parte do número #71 da revista Blimunda. Conversámos com especialistas, procurámos textos de José Saramago sobre a cidade e terminamos a edição com mais perguntas do que respostas. Objetivo cumprido.

Nesta edição também se fala sobre uma mostra de cartazes políticos, sobre ciúme, sobre o trabalho do ilustrador Isidro Ferrer, e sobre outros vários temas.

Bem-vindos a mais uma edição da Blimunda. Boas leituras e boas reflexões!"

 "A epígrafe da Revista Blimunda #71"


"Que Lisboa queremos para o futuro, 
pergunta o editorial da Revista Blimunda."

segunda-feira, 23 de abril de 2018

23 de Abril Dia Mundial do Livro

Texto explicativo de Luísa Ducla Soares, via "Porto Editora", aqui

"Dia Mundial do Livro

O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor foi instituído pela UNESCO em novembro de 1995, procurando fomentar o gosto pela leitura e, simultaneamente, respeitar a obra daqueles que, pela escrita, têm contribuído para o progresso social e cultural da Humanidade.

Qual a razão para se optar pelo dia 23 de abril? Publicam-se livros todos os dias...

Por coincidência, nesta data nasceu e morreu William Shakespeare, deixou-nos Cervantes e numerosos escritores famosos vieram ao mundo ou faleceram.

Mas já antes a Catalunha instituíra um Dia Internacional do Livro, festejado a 5 de abril, em que, tradicionalmente, se ofereciam livros e rosas aos amigos. O hábito gentil de associar o livro a uma flor nesta celebração foi adotado em vários países e ainda perdura.

Hoje, o Dia Mundial do Livro celebra-se em todo o planeta das mais diversas formas.

Mas gostaria de me concentrar na grande importância dos livros para os mais novos e, muito particularmente, para os meninos do jardim de infância que, sem saberem ler, têm por eles um amor e um fascínio que excedem, muitas vezes, os das crianças mais velhas.

O livro contado por uma educadora, por um familiar ganha uma carga afetiva e íntima.

Ele revela-se a grande porta para a descoberta consciente da língua, que é, afinal, como dizia Fernando Pessoa, a nossa pátria. No livro, a língua se faz arte, explorando a beleza das palavras, os ritmos, por vezes as rimas.

Ele ensina ou faz a imaginação voar. Brinca com o humor. Expõe situações paradigmáticas que preparam para a vida. Com ele vivem-se aventuras que de outra forma não eram possíveis.

Folhear um livro, um álbum ilustrado, constitui também uma incursão nas artes visuais, no mundo das formas, das cores, das sensações. Algumas obras destinadas a estes pequenos utentes nem sequer têm texto, vivem exclusivamente da ilustração, e isso lhes basta.

Caras educadoras, leiam, leiam e debrucem-se sobre as páginas com os vossos alunos. Levem-nos a recontar, a continuar as histórias. Façam-nos memorizar lengalengas, trava-línguas, poemas e canções. Dramatizem enredos, encham as paredes de desenhos que os meninos fizeram após a vossa leitura, e o livro deixará de ser apenas um conjunto de páginas unidas por uma capa e fará parte das crianças, da aula, da escola. Não terá limites."























"Encontros com o Património" da TSF (Manuel Vilas-Boas) programa dedicado à Fundação José Saramago e Casa dos Bicos (21/04/2018)

"Encontros com o Património"
TSF - Sábados, às 12h10, com repetição domingo, depois da 01h00
Programa de Manuel Vilas-Boas


Nesta edição vamos conhecer a Fundação José Saramago, instalada na Casa dos Bicos, em Lisboa.


Convidados
João Santa Rita, arquitecto
Sérgio Machado Letria, director da Fundação José Saramago
Ana Matos, curadora



quinta-feira, 19 de abril de 2018

"Visita à Casa de José Saramago" reportagem publicada pelo blog "O Melhor Blog do Mundo" em 16/11/2017

Recuperamos o post de "O Melhor Blog do Mundo" (16/20/2017) que relata a visita dos bloggers a Lanzarote, mais propriamente "A Casa" em Tías.

Pode ser recuperado aqui 
em https://omelhorblogdomundo.blogs.sapo.pt/visita-a-casa-de-jose-saramago-145146

O blog é de visita obrigatória, não só para quem gosta de viajar e conhecer novas paragens, como para quem ainda não teve a oportunidade de atravessar fronteiras e assim alimentar o sonho.
As reportagens fotográficas são acompanhadas de excelentes dicas e fotografias muito bem escolhidas.
https://omelhorblogdomundo.blogs.sapo.pt/
https://www.facebook.com/omelhorblogdomundo/
http://www.omelhorblogdomundo.pt/
https://www.instagram.com/omelhorblogdomundo/

"Hoje, 16 de Novembro, a data de aniversário do "nosso" Nobel da Literatura José Saramago, recordamos o dia em que visitámos "A Casa", forma como é conhecida a casa que foi o refúgio de Saramago desde 1993 até à sua morte, em Tías na ilha de Lanzarote.

Todas as fotografias estão publicadas no link indicado 
e têm créditos aos respectivos bloggers

"Terá sido em Maio de 1991 que Saramago e Pilar se deslocaram a Tenerife para uma conferência, aproveitando a viagem, foram até Lanzarote para visitar os cunhados de Pilar e terá sido nessa ocasião que Saramago se deslumbrou com a paisagem da ilha. Nesse momento, Saramago e Pilar decidiram fixar a residência naquele local construindo a Casa e mais tarde a biblioteca.

"A Casa" de Saramago abriu ao público 9 meses após a sua morte, obedecendo à lógica poética do romance da sua autoria "O Ano da Morte de Ricardo Reis", onde a personagem Ricardo Reis tem uma conversa com Fernando Pessoa, que está morto, e lhe explica que são precisos nove meses para que os vivos se esqueçam dos mortos.

A visita é feita com o auxílio do áudio-guia que, pelos textos criados por Pilar, nos relata pormenores da vida profissional e pessoal de Saramago, à medida que vamos avançando pelas divisões da casa.

A Sala
Antes de entrarmos na sala, passamos pelo hall de entrada onde, entre muitos objectos e pinturas, é possível ver um relógio que está parado nas 16h, hora em que Saramago conheceu Pilar.

A sala era lugar de descanso, com uma janela com vista para o mar que rodeia a ilha, que para Saramago e recordando palavras de César Manrique, era "a melhor obra". As paredes são revestidas com quadros relacionados com as suas obras.

O Escritório
Foi sobre a mesa de pinho que ainda hoje lá está que escreveu as obras "Ensaio sobre a cegueira" e "Os Cadernos de Lanzarote". Em frente à secretária num móvel de madeira mexicana, estão retratos dos seus avós, pais, da sua filha, dos netos e da esposa. Na parede está uma cópia do Prémio Nobel.

O Quarto
Foi aqui que no dia 18 de Junho de 2010, após tomar o pequenos almoço e ter voltado para a cama para descansar mais um pouco, acabou por descansar para sempre, com a mesma simplicidade que pautou a sua vida.

A Cozinha
Para Saramago, a cozinha era um local de convívio, por vezes trabalho, tertúlias prolongadas, um local onde gostava de receber os seus amigos. Nesta cozinha passaram algumas figuras muito conhecidas como Mário Soares, José Luis Rodríguez Zapatero, Bernardo Bertolucci, Susan Sontag, Juan Goytisolo, Carlos Fuentes, Álvaro Siza Vieira, Ángeles Mastretta, Pedro Almodóvar, entre outros.

Podemos admirar peças que Saramago foi adquirindo nas suas viagens pelo mundo e como Saramago faria, somos convidados a beber um saboroso café português, que bem que nos soube!

O Jardim
O jardim pode-se dizer que deu alguma luta, o solo necessitou de algum trabalho e foi preciso transportar terra para aquela zona para que Saramago pudesse dar início ao seu Jardim. Começou pelas palmeiras porque são nativas, pinheiros canários, uma romãzeira de Granada e dois marmeleiros. Depois continuou com um Olmo, uma sobreira cuja semente Saramago levou de Portugal, duas oliveiras portuguesas e duas oliveiras andaluzas. Era aqui que se costumava sentar e "gostava de sentir o vento, saber-se vivo, olhar o mar, pensar que o mundo pode ter remédio, que a humanidade que trazemos em nós deve prevalecer sobre a maldade".

A Sala de Reuniões
Foi pensada inicialmente para as reuniões da direcção da Fundação José Saramago, no entanto, a Fundação tem a sua sede em Portugal. Acabou por servir mais de sala de refeições quando os encontros se prolongavam ou de sala de conferências.

Nas paredes da sala é possível admirar algumas obras de arte como uma gravura do Prémio Nobel de Literatura Gao Xingjian, um desenho de Alberti ou uma paisagem da Islândia de Ildefonso Aguilar, país pelo qual Saramago sentia grande afecto.

A Biblioteca
"Uma casa feita de livros" era a descrição que Saramago fazia da sua casa. Segundo as suas palavras "esta biblioteca não nasceu para guardar livros, mas sim para acolher pessoas" e os livros, há que abri-los com cuidado, porque têm dentro o autor, com toda a sua sensibilidade, com tudo o que o fez ser único e irrepetível.

Aqui, por trás da sua cadeira, está um quadro do pintor checo Jiri Dokoupil, que retrata o casal em desenhos feitos com fumo de vela e tinta amarela. A biblioteca conta um acervo de cerca de 16 mil livros, entre outros objectos e muitas fotografias. 

A Oliveira
Esta oliveira fez a viagem de avião num pote entre as pernas de Saramago. Não se sabia se ia resistir ao solo árido da ilha mas esta oliveira alentejana provou que se aguentaria e apresenta-se frondosa e verde. Hoje, recebe os visitantes desta fantástica casa museu!

A Casa está aberta de segunda-feira a sábado das 10h às 14h e os bilhetes custam 8€.

Fizemos a visita no último dia de férias mesmo antes de ir para o aeroporto e adorámos, os textos do áudio-guia transportam-nos para o dia-a-dia de Saramago, como se estivessemos a passar uma manhã na casa de um amigo.

Se puderem, não percam a oportunidade de visitar.

Bons passeios!"














"20/04: Lola Dueñas e Pilar del Río apresentam «O Lagarto», em Madrid" Via Fundação José Saramago

Informação aqui 
em https://www.josesaramago.org/20-04-lola-duenas-e-pilar-del-rio-apresentam-o-lagarto-em-madrid/

"Na sexta-feira (20), às 18h, na Livraria Alberti, em Madrid, será apresentada a edição espanhola do livro «O Lagarto», que une as palavras de José Saramago e as ilustrações do artista brasileiro J.Borges.

Publicado em Espanha pela Editorial Lumen, «El Lagarto» será apresentado por Pilar del Río, autora da tradução do conto para o espanhol, e pela atriz espanhola Lola Dueñas."


José Saramago aborda a evolução e o uso da linguagem

Via YouTube, aqui

(...) "E cada vez temos menos palavras,
e cada vez usamos menos palavras." (...)

terça-feira, 17 de abril de 2018

De Jacinto Manuel Galvão "O Imaginário Português Historiografia Cultural nos Romances de José Saramago" (Calendário de Letras, Salamanca 1999)

A 6 de Julho de 1993, José Saramago já tinha feito referência a troca de correspondência com o professor Jacinto Manuel Galvão ("Cadernos de Lanzarote Diário I"). Frequentando a Universidade de Salamanca, informava que pretendia fazer uma tese sobre a obra de Saramago. 

Remate curioso, sendo o professor de Brunhosinho, perto de Mogadouro, alude ao facto de morar muito longe de Lisboa. Saramago escreve "Vamos a ver como se resolve o problema: ele parece não saber quão longe vivo, também eu, de Lisboa..."

Nesta altura José Saramago e Pilar del Río estariam já devidamente instalados em Lanzarote.
Mais tarde o encontro que fica imortalizado no "Diário III" dos "Cadernos de Lanzarote".
Assim.
27 de Maio (de 1995)

"Almocei com Jacinto Manuel Galvão, que veio de Mogadouro, onde mora, para falar comigo acerca do seu projecto de tese sobre o tema Historiografia Cultural nos Romances de J. S. A ideia perece-me interessantíssima. Segundo ele, o seu trabalho começará pelo levantamento de elementos fundamentais da cultura portuguesa, como seja um matriarcado recalcado por um patriarcado que se veio impondo ao longo dos séculos graças ao cristianismo, religião marcadamente patriarcal. O matriarcado ficou presente na religião popular, no sonho, na saudade, no sentimentalismo, no mito do encoberto... Diz também que tenho procurado operar nos meus livros um diálogo de desmontagem desses elementos da nossa cultura, sobretudo através de uma crítica sarcástica à moralidade portuguesa, cobarde e egoísta, de uma religiosidade farisaica. Provavelmente tudo isto é certo. Durante o almoço não se falou tanto da tese como da minha vida, das razões conhecidas ou intuídas de fazer eu o que faço, das andanças boas e más por que passei. Talvez que depois de duas horas de conversa, que mais foi monólogo meu, o autor tenha conseguido mostrar o que há de pessoa própria em ficções que, literalmente falando, não têm nada de autobiográficas. Esse foi o meu objectivo, e isso, creio, era o que queria Jacinto Galvão: que eu me explicasse." (Página 125) 




quarta-feira, 11 de abril de 2018

Apresentação da conferência "Saramago entre a negatividade e a utopia" do Prof. Horácio Ruivo (Universidade de Turim - Itália)



A propósito da conferência do Professor Horácio Ruivo, recupero a menção da Fundação José Saramago aquando da apresentação do livro “A representação do espaço em Saramago — da negatividade à utopia” (3/8/2017) e que pode ser recuperado e consultada aqui 

"Em março deste ano foi apresentado na Fundação José Saramago, em Lisboa, o livro “A representação do espaço em Saramago — da negatividade à utopia” de Horácio Ruivo, com a chancela da Edições Esgotadas. Após o seu doutoramento em Literatura Portuguesas, Horácio Ruivo decide publicar este estudo alargado e aprofundado sobre a representação do espaço em duas vertentes o “espaço da memória” e o “espaço da violência” em José Saramago. Os romances que foram objecto de investigação pelo autor foram: Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira, Levantado do Chão, A Caverna e As Pequenas Memórias."

Capa da obra

"Este estudo, assim é apresentado pela editora, incide sobre o espaço na obra literária de José Saramago. Considerada uma categoria intencionalmente privilegiada pelo escritor em muitos dos seus romances, não apenas na dimensão física, mas numa multiplicidade de sentidos emergente a partir dos diferentes topoi apresentados, reconhece-se a existência de uma linha ascensional que reflecte a forma evolutiva como vão sendo apresentados os espaços, reais ou sugeridos, em interacção com as personages, implicando nestas um forte crescimento interior.
Vão ser exploradas as dimensões humana e simbólica do espaço. A cada uma destas dimensões é associada, respetivamente, a memória e a violência."

sexta-feira, 6 de abril de 2018

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" apresentado pelo Teatro Municipal Baltazar Dias (Madeira - Março 2018) nas comemorações dos 130 anos

Crónica "O Ano da Morte de Ricardo Reis: mais um projecto inovador" de Carlos Gonçalves - Investigador Integrado no INET-md (FSCH/UNL) - publicada a 29/03/2018 no "JM Madeira" e que pode ser consultada e recuperada aqui

"Nos passados dias 9, 10 e 11 de março, os madeirenses tiveram a feliz oportunidade de assistir a um espectáculo de elevada qualidade artística - criativa e interpretativa -, ao qual foi dado o título de “o ano da morte de Ricardo Reis”, numa adaptação do original de José Saramago.
Este espectáculo que juntou cerca de 60 jovens artistas em palco, integrou-se nas comemorações dos 130 anos do Teatro Municipal Baltazar Dias. Tratou-se de uma organização da Secretaria Regional de Educação, através da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM), com produção da Câmara Municipal do Funchal.
A mim, pessoalmente, não me surpreendeu a qualidade deste espectáculo performativo de música, dança e teatro, pois assisti a todas as grandes produções da DSEAM, ao longo dos últimos treze anos. Mas acredito que para alguns dos madeirenses que lotaram os três espetáculos, possa ter sido uma surpresa inusitada. Pegar num original do consagrado escritor madeirense José Saramago é, por si só, um grande risco, pois trata-se de retratar Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Ricardo Reis. O espetáculo está dividido em dez cenas, todas elas passadas após a morte de Fernando Pessoa, numa adaptação de Carolina Caldeira, com direcção artística de Juliana Andrade, composição e direcção musical de Márcio Faria. A estes jovens docentes juntam-se Diana Pita, Roberto Moritz e Maurício Freitas. Sem dúvida uma equipa de “ouro” que a DSEAM conta para criar e dirigir espectáculos de qualidade. Uma verdadeira “Equipa de Criativos” que se mantêm na Madeira e não emigrou, como tantas outras.
Não posso deixar de destacar as competências da equipa de produção, coordenada por Ricardo Araújo, sob a direcção-geral de Virgílio Caldeira, bem como a equipa do Teatro Municipal, liderada por Sandra Nóbrega.
Sobre esta produção começo, naturalmente, pelo início de qualquer projecto criativo e inovador: Escolher a ideia! Depois a construção/adaptação de um texto/libreto; a criação da música original e respectiva orquestração; a criação das coreografias e finalmente a encenação com todas as suas facetas, incluindo a cenografia, desenho de luz, sonoplastia, etc… etc… Só quem nunca criou e montou um espectáculo desta natureza poderá ficar indiferente. Este foi mais um trabalho dedicado de vários meses de professores, alunos e técnicos que encarnam um papel de “profissionais”, no verdadeiro sentido da palavra. A mensagem ficou e a elevada qualidade artística e interpretativa também. Resta-nos questionar a oportunidade destas produções regionais poderem sair da Ilha e estar no todo nacional, representando o que de BOM aqui se produz e realiza. Para quando os apoios devidos a esta mobilidade, imprescindível para o reconhecimento dos artistas madeirenses? Será que as verbas da Santa Casa não poderiam servir, igualmente, para esta missão artístico-cultural?
Termino com um dos pensamentos de Fernando Pessoa “Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a Arte fica, por isso só a Arte se vê, porque dura”.

Mais informação pode ser consultada e recuperada aqui

Cartaz alusivo ao evento


"Com o espetáculo "O ano da morte de Ricardo Reis" terminamos de uma forma incrível as comemorações dos 130 anos. Durante 11 dias o Teatro realizou 11 eventos numa programação cultural de excelente qualidade em parceria com 9 entidades e que envolveu mais de 200 artistas e cerca de 3 mil espetadores. Muito obrigada a todos os que quiseram associar-se às estas comemorações."





"Registo fotográfico da estreia no palco do 
Baltazar dias do espectáculo "O Ano da Morte de Ricardo Reis"